CAPITULO 2: UMA DERROTA INESPERADA !
SÃO CRISTÓVÃO 2X6 FLUMINENSE.
A primeira rodada já demonstrou claramente que aquele time
do São Cristóvão era diferente. A equipe havia reunido grandes jogadores,
aliados ao preparo físico exigido pela escola de Ramón Platero. Naquele
campeonato, dois times pareciam destinados a abrir grande vantagem sobre os
demais: o próprio São Cristóvão e o Vasco da Gama.
O segundo compromisso, válido pela segunda rodada, também
foi disputado na Figueira de Melo. Desta vez, o adversário seria o bicho-papão
Fluminense, a maior equipe carioca da época, vencedora de diversos torneios e
dona do elenco mais caro do futebol local.
O jogo estava equilibradíssimo até os 35 minutos, quando
novamente o Fluminense "apelou", e isso acabou proporcionando sua
vitória. A principal chamada do jornal O Globo na época destacou justamente os
erros do árbitro, o senhor Ramos Freitas, que, devido a uma falha gigantesca,
ajudou diretamente na vitória tricolor.
As equipes entraram em campo com as seguintes escalações:
Fluminense: Ramos; Paulo e Ebraico; Nascimento, Floriano e
Fortes; Pipper, Nilo, Alfredo, Coelho e Moura Costa.
São Cristóvão: Paulino; Póvoas e Zé Luiz (Martins); Júlio,
Henrique e Alberto; Oswaldo, Octávio, Vicente, Arthur e Theóphilo.
Com a Figueira de Melo lotada, o clima era de festa. O
Fluminense era favorito pelo histórico e pelo peso de sua camisa, mas, pelo que
havia sido apresentado na primeira rodada, o time a ser temido era o dos
Cadetes. A torcida estava ansiosa, pois o torneio retornava após um período de
paralisação.
E o motivo da paralisação foi mais do que justo.
Imagine seu time ser campeão da Segunda Divisão e quem sobe
é o vice-campeão. Parece loucura, não é? Pois foi exatamente isso que a AMEA
fez.
Em 1925, o Andarahy conquistou a Segunda Divisão Carioca de
forma invicta, com 12 jogos, 11 vitórias e apenas um empate. O vice-campeão foi
o Villa Isabel, que sequer chegou perto de ameaçar a liderança do campeão.
O Helênico disputava a Primeira Divisão, mas enfrentava
sérios problemas financeiros. Por isso, preferiu abrir mão de sua vaga para
reduzir despesas e concentrar seus esforços em outras modalidades esportivas. O
correto seria o Andarahy herdar a vaga. No entanto, a AMEA resolveu promovê-la
utilizando um regulamento que envolvia algumas exigências administrativas que
tanto o Andarahy quanto o Villa Isabel preenchiam.
Apesar disso, o Andarahy carregava o peso esportivo de ter
sido campeão. Na assembleia que definiria quem subiria, porém, o resultado foi
um massacre: 6 votos a 1 em favor do Villa Isabel. Apenas um clube apoiou o
Andarahy: o Botafogo.
Voltando ao jogo, a torcida presente assistiria a uma
atuação magnífica da equipe do Bairro Imperial e a um enorme esforço do
Fluminense para equilibrar as ações. Apesar disso, ambas as equipes
apresentavam um nível técnico impressionante, demonstrando um futebol de alto
nível.
O ataque do São Cristóvão era leve, veloz e envolvente,
enquanto a experiente defesa tricolor tentava conter suas investidas. No
entanto, os Cadetes sofreriam um duro golpe ainda no primeiro tempo.
O zagueiro Zé Luiz sofreu uma entrada violenta de um
atacante do Fluminense, lesionando-se. O técnico Vinhaes precisou substituí-lo
por Martins. A mudança acabou desorganizando parcialmente a equipe, que perdeu
um pouco de seu equilíbrio defensivo.
Mesmo assim, o São Cristóvão foi superior durante boa parte
dos dois tempos. Porém, um fator decisivo acabaria entregando a vitória ao
Tricolor das Laranjeiras.
Aos 30 minutos do segundo tempo, o placar marcava 2 a 2. Em
uma jogada dentro da área, o goleiro Paulino sofreu uma entrada violenta de
Moura Costa e caiu no gramado. O Fluminense seguiu atacando. O árbitro viu a
falta e chegou a apitar, mas ninguém ouviu o apito. Com o gol livre, o atacante
tricolor empurrou a bola para as redes.
Inacreditavelmente, o árbitro validou o gol.
A confusão foi imediata.
A revolta dos jogadores do São Cristóvão foi tão grande que
rapidamente se refletiu nas arquibancadas. Tentativas de invasão de campo foram
registradas, obrigando a polícia a intervir. A partida ficou paralisada por
cerca de dez minutos.
Quando o jogo foi retomado, constatou-se que Paulino não
tinha mais condições de continuar. Sem substituições disponíveis na época, um
jogador de linha — cujo nome não foi registrado pelas fontes consultadas —
assumiu a posição de goleiro.
Nos minutos finais, aproveitando-se da situação, o
Fluminense marcou mais três gols, transformando um confronto equilibrado em uma
goleada de 6 a 2.
Foi uma derrota dura, injusta e fortemente influenciada pela
arbitragem. Mas, ao mesmo tempo, os Cadetes deixaram o campo com uma certeza:
aquele time tinha qualidade suficiente para enfrentar e vencer qualquer
adversário. Bastava jogar futebol.
HISTORIADOR PAULO JORGE
Realizado pesquisa de apoio usando o livro "Andarahy Eterno".
Pesquisa ao Acervo jornal "O Globo".



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