O FIM DA FIGUEIRA DE MELO- VAMOS EMBORA PARA A ILHA.
O Estádio Ronaldo Nazário, em Figueira de Melo, já esteve ameaçado de desaparecer em diversas ocasiões. O local chegou a ter um projeto de ampliação para 40 mil pessoas e quase foi vendido, nos anos 2010, para a construção de prédios residenciais.
Entretanto, a maior ameaça ocorreu em 1971, quando a sede quase foi negociada para viabilizar um projeto gigantesco. A proposta previa que o São Cristóvão abandonasse suas raízes no bairro de São Cristóvão e se mudasse para a Ilha do Governador.
O São Cristóvão sempre conviveu com dificuldades financeiras, principalmente após a década de 1960. Apesar de alguns períodos de sucesso, o clube enfrentou muitos problemas econômicos ao longo de sua história, o que tornava propostas desse tipo bastante tentadoras.
As antigas diretorias tinham um desejo: unir as duas sedes em uma só. Ou seja, transferir a sede náutica para junto da sede de futebol, levando barcos e toda a estrutura para a Figueira de Melo. Por motivos óbvios, isso não era possível.
Com uma sede única, os investimentos poderiam ser concentrados e intensificados. Para isso, o plano era transferir todas as atividades para uma nova sede náutica, localizada na entrada da Ilha do Governador. O projeto também envolveria o desaparecimento de uma favela existente na área.
A diretoria recebeu uma proposta de 8 milhões de cruzeiros para vender a sede da Figueira de Melo e todas as suas dependências, que dariam lugar à construção de prédios comerciais e residenciais. O dinheiro arrecadado seria utilizado na construção de um novo estádio, além da reforma e modernização da sede náutica.
Uma reunião foi realizada com os conselheiros e associados do clube para discutir a proposta. A ideia era destinar 2 milhões de cruzeiros à modernização da sede náutica e os outros 6 milhões à construção de um novo estádio. O local escolhido seria a área ocupada pela comunidade da Nova Holanda, que seria removida — contando, inclusive, com apoio do governo — para dar lugar à nova casa do São Cristóvão.
Um dos grandes porta-vozes desse projeto era Benilton Rodrigues, diretor de futebol do clube. Ele estava cansado de ver o São Cristóvão ser tratado como um pobre coitado e se apresentar como um "mendigo do futebol". Os jogadores conviviam diariamente com a estrutura precária do estádio, atrasos salariais, falta de material e diversas dificuldades. Além disso, reclamavam que tinham desempenho inferior quando atuavam no Maracanã, pois as dimensões do campo eram diferentes das encontradas na Figueira de Melo.
O presidente João Gualberto de Quadros Mendonça recebeu uma herança cruel das administrações anteriores: uma dívida considerada impagável. Com débitos protestados em cartório e credores aparecendo diariamente à porta do clube, ele via na venda do terreno a única solução para salvar as finanças da instituição. Tratava-se justamente da histórica sede da Figueira de Melo, adquirida em definitivo pelo São Cristóvão em 1922.
A situação era tão conturbada que João, inicialmente vice-presidente, assumiu a presidência após o licenciamento de José Ferreira de Agostinho, que lhe deixou uma dívida de cerca de 400 mil cruzeiros. Sócio do clube há muitos anos, João sempre defendeu a ideia de unificar as sedes e enxergava naquele projeto uma oportunidade de reorganizar o São Cristóvão.
Os estudos para a mudança já estavam avançados. A metragem do terreno destinado ao novo estádio havia sido levantada, e a sede náutica, com 28 metros de fundos e 400 metros de frente, seria transformada em um grande centro esportivo, concentrando as atividades sociais e esportivas do clube em um único local.
HISTORIADOR PAULO JORGE


