UM CRAQUE QUE CARREGAVA A HISTÓRIA DE UM BAIRRO :
SANTO CRISTO !
Ele carregava o nome do bairro com orgulho. Um craque habilidoso, de gênio forte, que marcou geração por onde passou. Sempre apontado entre os destaques das partidas, Walter Goulart da Silveira foi um gigante de sua época, um dos principais responsáveis pelo segundo maior título do São Cristóvão de Futebol e Regatas: o Torneio Municipal de 1943.
Entre idas e vindas, o Santo Cristo jogou cinco anos pelo clube dos Cadetes, em três passagens. Em duas delas, foi um dos principais jogadores da equipe. Vamos conhecer esse verdadeiro craque de sua geração.
Walter Goulart da Silveira nasceu no dia 12 de setembro de 1922, no bairro de Santo Cristo. As origens do bairro remetem aos tempos coloniais. A região recebeu esse nome em razão da Igreja de Santo Cristo, construída em frente ao cais do porto. Por ali passaram alguns dos primeiros bondes da cidade — inicialmente de tração animal e, posteriormente, elétricos.
Com proximidade ao bairro Imperial de São Cristóvão, ao Caju e à antiga região da Praia Formosa, foi nesse cenário que Santo Cristo iniciou sua vida futebolística.
Ainda jovem, passou pelas categorias do Club de Regatas Vasco da Gama, atuou pelo Oposição, equipe da Piedade, e também pelo Bonsucesso Futebol Clube, onde se destacava bastante — embora, na época, não tenha sido aproveitado como poderia.
Foi, porém, no Marvillis, time da fábrica do Caju, que seu talento chamou atenção. Olheiros do São Cristóvão de Futebol e Regatas perceberam o potencial daquele jovem promissor e decidiram contratá-lo, dando início a uma trajetória marcante no clube dos Cadetes.
| página Caju Cultural Uma pequena aula sobre a antiga fábrica que deu origem ao time : |
O Rui Barbosa — sim, o mesmo nome eternizado na Literatura — defendia a industrialização como eixo central para o progresso nacional. As medidas de ampliação de crédito e a política econômica do Encilhamento, conduzidas por ele à frente do Ministério da Fazenda, somadas às mudanças na legislação das Sociedades Anônimas, abriram caminho para a expansão da Companhia América Fabril.
Em aproximadamente uma década, a então Santos Peixoto & Cia. América Fabril ampliou seu capital de maneira significativa, fortalecendo sua posição no setor industrial.
O crescimento levou, em 1903, à aquisição da Fábrica Bonfim, localizada no bairro do Caju — área que anteriormente integrava a freguesia de São Cristóvão. Com isso, a empresa passou a figurar entre as dez maiores indústrias têxteis do país.
Entretanto, foi a partir de 1911, com a inauguração da Fábrica Mavilis, também instalada na região portuária do Caju, ao lado da Bonfim, que a companhia atingiu seu auge de modernização. Reconhecida como “a mais avançada fábrica de fiação e tecelagem do Brasil” naquele período, a Mavilis destacou-se por operar com os equipamentos de fiação mais modernos da época, consolidando definitivamente o protagonismo da Companhia América Fabril no cenário industrial brasileiro.
Santo Cristo iniciou sua trajetória no juvenil do Marvillis. Tentou a sorte no Club de Regatas Vasco da Gama, mas, apesar de toda a habilidade, isso não foi suficiente para se firmar.
Chegou ao Bonsucesso Futebol Clube e, nos treinamentos, “fazia chover”. Com apenas 17 anos, integrou o elenco principal e disputou o Campeonato Carioca de Reservas (segundos quadros). No entanto, sem oportunidades no time de cima, retornou ao Marvillis — e foi aí que sua história começou a mudar.
Aos 18 anos, em 1942, acertou com o São Cristóvão de Futebol e Regatas. Desde o início, treinador e diretoria tinham uma convicção: haviam encontrado seu craque.
![]() |
| time de veteranos em 1943 do SCFR |
No dia 29 de março de 1942, aconteceu o primeiro jogo oficial de Santo Cristo pelo São Cristóvão de Futebol e Regatas. A partida foi válida pelo antigo Torneio Início, e os Cadetes saíram vitoriosos por 1 a 0 contra o America Football Club (RJ).
Uma semana depois, em 5 de abril, veio a estreia no Campeonato Carioca — e já deixou sua marca: Santo Cristo marcou um gol na vitória por 5 a 2 sobre o Bangu Atlético Clube.
Santo Cristo teve três passagens pelo São Cristóvão, sempre com muito destaque e identificação com o clube.
| TIME CAMPEÃO DO TORNEIO MUNICIPAL |
Naquele time montado em 1942 — que custou caro à diretoria, inclusive com investimentos em excursões — os comandados de Santo Cristo e Caxambu, ambos grandes craques da época, formaram uma equipe muito forte.
Em 1943, aquele elenco conquistou o terceiro título mais importante do futebol carioca à época: o Campeonato Municipal do Rio de Janeiro.
Santo Cristo era um verdadeiro craque. Tanto que seu destino foi a maior potência do período: o Club de Regatas Vasco da Gama, que montava o time que ficaria conhecido como “Expresso da Vitória”. Lá, Santo Cristo disputou 71 jogos e marcou 34 gols, participando de um dos elencos mais emblemáticos da história do clube. Chegou a ser cogitado para jogar a Copa de 1950.
- SCFR; 1942-1944/ 1954-1956/ 1959
- Vasco: 1945-1946
- Botafogo : 1947
- São Paulo: 1948
- Fluminense: 1948-1951
- Guarani: 1951
- XV de Piracicaba: 1951-1953
- Portuguesa SP: 1953
- Ferroviária SP: 1953-1954
- Altético-MG: 1955
- Olaria: 1956
Na campanha do título do Campeonato Municipal do Rio de Janeiro de 1943, Santo Cristo marcou cinco gols. Um dado curioso é que três deles aconteceram em uma mesma partida — e que partida! No último jogo do campeonato, contra o Canto do Rio Foot-Ball Club, no dia 6 de junho, as equipes protagonizaram um eletrizante empate em 6 a 6, com nada menos que 12 gols.
Santo Cristo também esteve presente em um dos episódios mais marcantes da história do São Cristóvão de Futebol e Regatas: o fechamento do Estádio da Figueira de Melo. No dia 19 de setembro, em uma partida contra o Clube de Regatas do Flamengo, assim que o Flamengo marcou o primeiro gol — anotado por Vevé — parte da arquibancada onde estava a torcida rubro-negra desabou, gerando desespero e confusão. O incidente levou à interdição do estádio.
No meio de sua segunda passagem pelo São Cristóvão, Santo Cristo saiu para treinar por três meses no Clube Atlético Mineiro, mas retornou ao clube carioca.
Em 1956, participou da excursão do São Cristóvão pela Europa e África, sendo novamente um dos principais jogadores da equipe.
Ao fim da carreira, já com 39 anos, decidiu encerrar sua trajetória no clube que o projetou para o futebol. Em 1959, seu último ano como profissional, não poderia ter sido diferente: aposentou-se vestindo a camisa do São Cristóvão, consolidando seu nome como um dos grandes ídolos da história do clube.
Educação salvou a vida de Santo Cristo
Dois anos antes, em 1948, quando atuava no futebol paulista, Santo Cristo viveu um episódio que marcaria sua história. Era sexta-feira, 27 de agosto, e ele aguardava um voo da Vasp com destino ao Rio de Janeiro, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, quando um imprevisto mudou tudo.
O cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar, precisava chegar com urgência à então capital federal. O voo estava lotado. Consultado, Santo Cristo não hesitou: adiou a própria viagem e cedeu seu lugar ao religioso.
A aeronave seguiu viagem, mas, ao tentar pousar no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, uma das asas atingiu o prédio da Escola Naval. O avião caiu na Baía de Guanabara.
Dezoito pessoas morreram e apenas três sobreviveram. Entre as vítimas estava o jornalista Cásper Líbero, fundador do jornal A Gazeta.
Com um gesto de generosidade, Santo Cristo acabou salvando a própria vida.
Histórias do futebol que parecem roteiro de cinema — mas são absolutamente reais.
.jpg)


