Hoje iremos mostrar trechos da reportagem do jornal " O Globo" do dia 22/11/1926, um dia após do título carioca.
Decidiu-se, ontem, o Campeonato do Rio de Janeiro — o São Cristóvão, campeão de 1926. A sua vitória de ontem sobre o Flamengo por 5x1.
Não é preciso grande gasto de palavras para encarecer o valor que teve o dia esportivo de ontem, com o jogo de futebol decisivo do campeonato oficial da cidade, entre os times do C. R. do Flamengo e do São Cristóvão A. C. Disputado o referido campeonato em circunstâncias das mais interessantes, tendo o sorriso da vitória, durante longo tempo, oscilado entre três clubes, chegou afinal ao seu término.
O Flamengo, aliás, sem colocação de destaque na lista dos concorrentes, ofereceu uma bela lição de moral esportiva, empenhando-se pela vitória nesse jogo, apesar de não ter interesse direto no final do campeonato. Mas os clubes que, com maior atenção e entusiasmo, acompanharam a disputa de ontem foram o São Cristóvão, participante direto, e o Vasco da Gama, como espectador, que via decidir-se a sua sorte. Para que se avalie a relevância desse jogo, basta dizer que qualquer de suas possíveis soluções levaria a um resultado diferente.
A vitória do Flamengo importaria na obtenção do título de campeão por parte do Vasco da Gama; o triunfo do São Cristóvão dar-lhe-ia o cobiçado e honroso título; o empate tornaria empolgante o final do campeonato, pelo empate deste também e sua subsequente decisão no melhor de três jogos.Já se vê, assim, a importância que teve a partida referida, assistida por numerosa concorrência, apesar do mau tempo que fez.
A chuva, forte pela manhã e persistente durante o resto do dia, prejudicou muitas das pessoas esportivas presentes. Entre as atrações que deixaram de ser realizadas, deve ser citado o final do campeonato individual de lawn-tennis, em que deveriam ter medido forças, num encontro de sensação, os tenistas Alberto, do Fluminense F. C., uma das “raquetes” mais afamadas do Rio de Janeiro, e Sidney Pullen, do C. R. do Flamengo, jogador de notoriedade, que estava então no apogeu da forma e do valor.
O valente S. Christovão é o-campeio ds cidade!
A sua equipe derrottou» lindamente, o Fíamengó por 5x1
Magnífico aspecto apresentava, na tarde de ontem, o campo da Rua Paysandu. E havia razão para a grande afluência, pois se ia travar uma peleja importantíssima, como há muito não se verificava, da qual resultaria o cobiçado título de campeão carioca de futebol no corrente ano.
Sendo assim, muito embora o tempo chuvoso, todas as dependências do grande clube rubro-negro estavam repletas. E toda aquela multidão vibrava de entusiasmo, aplaudindo emocionada os seus favoritos por ocasião dos lances sensacionais.
É verdade que não se registraram lances perfeitos em todo o transcorrer da pugna, pois, na segunda fase, tal foi a pressão exercida pelo quadro alvinegro que o jogo dos locais descambou por completo. Seus jogadores desnortearam-se, a equipe desmantelou-se e, por que não dizer, na iminência de uma grande derrota, veio a desconjuntar-se toda na fase final do segundo tempo.
A primeira fase, entretanto, foi magnífica. Houve falhas de técnica, sim, mas o ardor e a energia dos combatentes, disputando palmo a palmo o terreno e pondo em ação todos os esforços possíveis, deram uma excelente impressão à partida, encobrindo, assim, as ligeiras falhas que poderiam ser apontadas se o jogo fosse tão somente analisado dentro dos rigores exigidos pela técnica para a verdadeira prática do esporte.
Com relação ao vencedor, porém, poucas — muito poucas mesmo — foram as falhas encontradas. O valente quadro, que tão brilhantemente conquistou o campeonato da cidade, é bem merecedor deste título, pois o conquistou no terreno da luta, derrotando, de forma brilhante, os seus mais terríveis adversários.
O seu esmagador triunfo da tarde de ontem, abatendo pelo elevado placar de 5 x 1 o Flamengo, é bem a prova do que afirmamos. Neste final de temporada, já na estação imprópria para a prática dos esportes terrestres, ciente de sua responsabilidade, o São Cristóvão.
A equipe do Flamengo, por mais treino que ainda tivesse, não podia, absolutamente, derrotar o seu antagonista de ontem. Esta foi a impressão deixada.É verdade que o Flamengo resistiu brilhantemente durante todo o primeiro tempo e parte do segundo. Mas teve de sucumbir ante a superioridade manifesta do adversário. Aliás, já na primeira fase, ao observador desapaixonado não passaria despercebida certa superioridade do vencedor.
Notava-se no São Cristóvão muito treino, muita compreensão e muito valor, tanto no conjunto quanto nas forças isoladas. No Flamengo, via-se vontade e energia, porém pontos fraquíssimos, quer na defesa, quer no ataque. Entre os jogadores, Amílcar e Neci foram os que mais se salientaram. Pena não esteve firme; os “halves” fracassaram, mormente Japonês; e, na linha, Fragoso foi um elemento nulo e Nonô não esteve em seus bons dias. Moderato foi um dos que mais trabalharam, enquanto Allemand esteve medíocre.
O primeiro a pisar o gramado foi o Flamengo. O público recebeu o quadro rubro-negro com grandes aclamações. Pouco depois, a multidão prorrompeu em novos aplausos: era a entrada do time são-cristovense.
As equipes posaram para os fotógrafos entre a ansiedade da assistência, que se dividia em duas grandes correntes, uma favorável ao clube rubro-negro e outra ao clube visitante. Fervilhavam, então, os palpites, todos, aliás, desencontrados.
Pouco depois, um frêmito de animação perpassou pela assistência: o juiz anunciava o início da pugna.
Alinharam-se os dois times na seguinte ordem:
FLAMENGO — Amado; Pennaforte e Hélcio; Japonês, Flávio e Favorino; Allemand, Achê, Nonô, Fragoso e Moderato.
SÃO CRISTÓVÃO — Paulino; Póvoas e Zé Luiz; Júlio, Henrique e Alberto; Oswaldo, Octávio, Vicente, Arthur e Theophilo.
| TIME CAMPEÃO. |
O JUIZ — Foi o Sr. Carlos Martins da Rocha (Carlito), do Botafogo F. C.
SÃO CRISTÓVÃO 5X1 FLAMENGO
E, assim, com esse resultado conquistado numa partida leal, o valente grêmio da Rua Figueira de Melo conquistou o honroso e merecido título de campeão da cidade. Honroso e merecido, dissemos bem: honroso porque exprime a força máxima entre os principais clubes da cidade; merecido porque foi conquistado após consecutivas vitórias contra os mais fortes, à custa de seus esforços, sacrifícios e, sobretudo, muita disciplina.
O Globo deixa aqui registradas as suas felicitações ao valente São Cristóvão, o glorioso campeão do ano. Ele bem mereceu o título que conquistou, marcando a página mais gloriosa de sua vida esportiva.
Houve uma cena sentimental: o conhecido esportista Amadeu Macedo, velho baluarte do campeão da cidade, do qual é presidente, ao terminar a peleja, abraçou-se com os amigos, chorando. Eram lágrimas de alegria, lágrimas suaves.
| ATACANTE THEÓPHILO |
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| ZAGUEIRO ZÉ LUIZ |



