sexta-feira, 22 de maio de 2026

DOSSIE JOÃO CANTUÁRIA

 O TEXTO DEFINITIVO SOBRE O MAIOR DE TODOS!
JOÃO CANTUÁRIA.

1918- Vida Esportiva 

O atacante recebeu muitas homenagens, mas a morte de outro atleta sensibilizou ainda mais o meio esportivo carioca: a de João Cantuária, jogador-símbolo do São Cristóvão de Futebol e Regatas. Mineiro de São João del-Rei, nascido em 28 de setembro de 1894 em uma família de longa tradição militar pelo lado paterno, ele também veio ainda jovem para a então capital federal, onde começou a jogar futebol pelos segundos times do Riachuelo e do Mangueira.

Em julho de 1909, participou da fundação do São Christóvão Athletico Club (na grafia da época), que, dois anos depois, se filiaria à Liga Metropolitana de Sports Athleticos (LMSA), entidade que organizava o Campeonato Carioca naquele período. Jogador de boa estatura, grande agilidade, técnica refinada e espírito de liderança, Cantuária marcou época vestindo a camisa alva nos primeiros anos do clube no futebol do Rio, destacando-se como um notável “sportsman”.

Após estrear na primeira divisão do campeonato da LMSA em 1912, aos poucos o São Cristóvão foi melhorando suas campanhas até alcançar um bom quarto lugar em 1917, quando bateu duas vezes o Botafogo de Futebol e Regatas — uma delas por sonoros 6 a 1 em seu campo da Figueira de Melo, inaugurado no ano anterior — e venceu o futuro campeão Fluminense Football Club por 3 a 1, também em casa. O clube cadete terminou apenas cinco pontos atrás dos tricolores.

Alguns anos antes, em 16 de setembro de 1913, João Cantuária participara de uma das partidas embrionárias da Seleção Brasileira de Futebol, quando um combinado carioca enfrentou e venceu o chileno por 2 a 1, em jogo disputado no campo do America Football Club, na Rua Campos Sales. Tempos depois, ele voltaria a ser convocado para seleções cariocas, nas quais, coincidentemente, chegou a ter o então banguense Archibald French como um dos companheiros da linha ofensiva.

A temporada de 1918 tivera um início muito promissor para Cantuária. No dia 13 de janeiro, ele havia sido um dos destaques na vitória do São Cristóvão por 4 a 3 sobre o Società Sportiva Palestra Italia, em um “match interestadual” na Figueira de Melo, ao fazer duas assistências para gols do meia-esquerda Leão. Em março, novamente atuando pela seleção carioca, levantara a Taça Delfim Moreira ao vencer o “scratch” mineiro em Belo Horizonte.

No dia 21 daquele mesmo mês, Cantuária ajudaria o São Cristóvão a conquistar o Torneio Início do Campeonato Carioca, primeiro título da equipe principal em sua história. Após superar o Villa Isabel e o Andarahy nas primeiras fases, o time levantou a taça ao bater o Fluminense por 2 a 0 na competição disputada no campo do Botafogo, na Rua General Severiano. Em seguida, o clube voltou a aparecer forte na briga pelo título do campeonato propriamente dito.

Quando o mês de outubro começou, os cadetes somavam dez vitórias e um empate em suas 14 partidas, ainda tendo chances de tirar a conquista das mãos do Fluminense. No último jogo antes da pausa, porém, um empate com o Bangu Atlético Clube em 1 a 1, na Rua Ferrer, tornou as possibilidades mais remotas. Cantuária, que já havia marcado oito gols na competição, jogou nessa partida. Diz-se que já estava febril, mas, mesmo assim, entrou em campo.

O ídolo sãocristovense resistiria por pouco mais de duas semanas, vindo a falecer em 25 de outubro, aos 24 anos de idade. Em seu leito de morte, Cantuária pediu aos companheiros apenas que não perdessem para o Botafogo, que, de acordo com a tabela original, seria o próximo adversário. A partida acabaria adiada para 5 de janeiro de 1919, já com o título definido. Ainda assim, os jogadores cumpriram seu último desejo, vencendo por 3 a 1.

Entre as muitas homenagens que recebeu estava um poema escrito sob pseudônimo por uma torcedora do Clube de Regatas do Flamengo e publicado no jornal “O Imparcial”. Nos anos 1930, o jornal oficial do clube seria batizado de “O Cantuária”. Mais tarde, quando Lamartine Babo criou canções que serviriam de hinos para os clubes cariocas, o falecido atleta ficaria eternizado nos versos: “Estimulam sua fibra extraordinária / Os grandes feitos do saudoso Cantuária”.

Quase todos os clubes da cidade perderam associados e dirigentes infectados pelo vírus, como o primeiro-secretário do Flamengo, Thiers da Silva. Entre os atletas contaminados que conseguiram se curar estava outro rubro-negro, o famoso zagueiro Píndaro, o “Gigante de Pedra” da Seleção, que, após se recuperar, passou a exercer sua profissão de médico sanitarista durante a paralisação, ajudando a cuidar de pacientes da gripe em outras regiões da cidade.

AMIGO ANTES DA MORTE : 

Cantuária vivia e respirava o clube. Sua residência era na Rua Figueira de Melo, número 238, literalmente a poucos metros do clube, onde fazia de tudo um pouco e passava boa parte do seu dia.

O Rio de Janeiro passava por uma pandemia de gripe espanhola que assolava toda a cidade. Estimativas de pesquisadores mostram que morreram entre 14 e 15 mil pessoas em decorrência da doença. E essa maldita epidemia infelizmente deixou dois de nossos jogadores doentes: Cantuária e Vinhaes.

Um dado interessante que encontramos é a amizade que existia entre os dois. Considerados melhores amigos, Cantuária e Vinhaes eram vistos sempre juntos; até dentro de campo se procuravam. Quis o destino que os amigos fossem contaminados e que um cuidasse do outro até a morte.

Ambos os jogadores foram convocados para representar os cariocas em um amistoso contra a equipe paulista. Viagem marcada, delegação reunida, tudo pronto para viajar, mas ambos os jogadores estavam doentes e, com isso, foram cortados da viagem. Esse corte aconteceu no dia 12 de outubro. Cantuária se despediria deste mundo no dia 25.

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