quinta-feira, 30 de abril de 2026

ORLANDO GATO PRETO

 UM GOLEIRO LENDÁRIO : ORLANDO "GATO PRETO"


O que significa a base para um clube de futebol? Hoje, desde muito cedo, os meninos são treinados já com uma lógica bem definida: tornar-se ativos valiosos, verdadeiros “produtos” para exportação. Nesse cenário, não é necessário, necessariamente, ser um craque fora de série; basta apresentar bom desempenho, destacar-se o suficiente para despertar interesse de mercado. O objetivo é claro: gerar retorno financeiro. Os clubes investem na formação esperando que, no futuro, esses jovens possam ser negociados, sustentando todo o sistema e, muitas vezes, garantindo lucros por meio de cláusulas contratuais do clube formador.

Entretanto, nem sempre foi assim. Há algumas décadas, fazer parte da base de um clube representava, antes de tudo, uma oportunidade de mudança de vida. Para muitos jovens, era a chance de sair de uma realidade difícil e conquistar um futuro melhor através do futebol. Já para os clubes, a base era uma esperança de revelar talentos que pudessem fortalecer a equipe principal, manter o clube competitivo na divisão em que atuava e, eventualmente, garantir recursos por meio de excursões e partidas.

É nesse contexto que se insere a história de um dos grandes nomes formados nas categorias de base do São Cristóvão de Futebol e Regatas. Revelado no tradicional campo da Figueira de Melo, surge um personagem que representa bem essa época: Orlando, conhecido como “Gato Preto”.

Morador do subúrbio carioca, Orlando construiu sua trajetória com esforço, talento e determinação. Ele não apenas se destacou no São Cristóvão, como também venceu na vida ao consolidar seu nome como um dos grandes goleiros da Associação Portuguesa de Desportos. Sua história carrega o espírito de um tempo em que o futebol era, acima de tudo, uma ponte para sonhos maiores — tanto para os jogadores quanto para os clubes que apostavam neles.


Formação do São Cristóvão em 1961. Em pé: Miro, Orlando, Renato, Medeiros, Valdir e Décio. Agachados: Arinos, Ivo, Paulinho, Russo e Olivar. Crédito: revista do Esporte número 147.








Orlando Alves Ferreira, o Orlando “Gato Preto”, foi nascido e criado em Bento Ribeiro, subúrbio do Rio de Janeiro. Desde pequeno, aprendeu, a duras penas, que a vida não era fácil. Abandonado pelo pai, era o irmão mais velho de nove, com sete homens e duas mulheres. Assumiu a responsabilidade desde cedo e começou a trabalhar para ajudar em casa, pois sua mãe não tinha condições, já que era cega. Orlando entendeu que, a partir do abandono do pai, ele seria o “homem da família”.

Trabalhando para trazer o pão para casa, conseguia sempre um tempo para fazer o que mais amava: jogar futebol. Desde pequeno, se destacava não pela sua habilidade com a bola nos pés, mas com a bola nas mãos. Um goleiro excepcional, enxergava em Barbosa, goleiro do Vasco, o arqueiro que desejava ser.

Desde pequeno, jogava nos campos de Bento Ribeiro e região, sempre se destacando pela sua elasticidade, que parecia acima do normal, e suas atuações na várzea o levaram até o São Cristóvão, onde chegou em 1958, no juvenil.

Enxergando o potencial do garoto, a comissão técnica da época o preparou para assumir a titularidade em 1961. Foram três anos de preparo e observação, e ele não teria uma tarefa fácil: substituir uma lenda do gol, um arqueiro lendário no São Cristóvão e no Flamengo, Franz.

Mal o Gato Preto sabia que, em menos de dois anos, sua vida mudaria completamente graças às suas atuações. Seu primeiro jogo oficial foi na estreia do São Cristóvão no Carioca de 1961, em um empate de 0 a 0 contra o Bangu, e ali a crônica esportiva já percebia que ele era diferente.

No campeonato de 1961, a boa campanha do time colocou ainda mais em evidência suas atuações, principalmente nos jogos contra os grandes, onde ele se destacava ainda mais, e a crônica esportiva ressaltava isso. Um grande exemplo foram as vitórias sobre o Flamengo e os empates contra Vasco e Fluminense, nos quais o goleiro foi o maior responsável pelos resultados. Nesse ano, foi escolhido entre os melhores goleiros da temporada e já chamava a atenção dos grandes clubes, passando a sofrer assédios.

Em 1962, de contrato renovado, Orlando teria um ano parcialmente bom, já que começou como titular, mas foi subitamente colocado na reserva na parte final do campeonato. A diretoria entrou em litígio com o jogador, pois o goleiro começou a jogar muito mal e, ao mesmo tempo, entrou com um pedido no sindicato dos jogadores alegando que não estava recebendo salários. O dirigente da época, o senhor Nelson de Almeida, vice-presidente do São Cristóvão, alegou que o goleiro não queria receber os três meses de salários atrasados, pois estaria tentando forçar sua saída. O goleiro acabou recebendo logo depois, mas o problema não era esse.

Gato Preto tinha propostas do Vasco e quase fechou com o Taubaté, e o São Cristóvão havia resistido à primeira investida da Portuguesa de São Paulo. Gato Preto recebia 20 mil cruzeiros nos cadetes. A proposta da Lusa era de 40 mil cruzeiros, mais 10% de luvas, o que mudaria o padrão de vida de Orlando, e ele sentiu, sim, não o peso do salário, mas o peso de cuidar da mãe. Orlando fez a excursão com o time em 1962 e acabou sendo titular em todos os jogos.

Sua mãe era cega, doente e dependente dele. Ele sabia que a proposta da Lusa mudaria sua vida. Com isso, ficou com a mente abalada e acabou não voltando à titularidade no Carioca, pois estava passando por um momento difícil. Seu último jogo pelo time foi o empate de 1 a 1 contra o Vasco, no qual entrou no meio da partida e foi destaque.

No dia 29 de dezembro de 1962, Gato Preto fechou contrato com a Lusa. O São Cristóvão recebeu 5 milhões de cruzeiros pelo seu passe. Seu salário seria de 55 mil cruzeiros, mais 10% de luvas e gratificações. Com isso, Orlando Gato Preto partiu para São Paulo, onde se tornaria ídolo máximo da Lusa paulista.


NÚMEROS DO GOLEIRO PELO CLUBE: 57 JOGOS 

  • 17 VITÓRIAS
  • 15 EMPATES 
  • 25 DERROTAS 
CARREIRA 
  1. 1960 A 1962- SÃO CRISTÓVÃO 
  2. 1963 A 1974- PORTUGUESA DE DESPORTOS 
  3. 1975 A 1976- SAMPAIO CORREA, OPERÁRIO-MS, OPERÁRIO DE VÁRZEA GRANDE-MT 
  4. 1976- ENCERROU A CARREIRA.

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